O ano passou voando… até a hora de cortar pimentões
- Marleide Rocha

- 30 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
Sobre presença, silêncio e a vida que acontece nos pequenos gestos

O ano costuma terminar assim: com balanços, promessas e aquela sensação quase automática de que “passou voando”. É curioso como repetimos essa frase, ano após ano, como se o tempo tivesse acelerado — quando, muitas vezes, fomos nós que atravessamos os dias rápido demais.
No meu último atendimento do ano, uma paciente compartilhou algo aparentemente simples. Enquanto cortava pimentões para preparar o jantar, percebeu que, pela primeira vez em muito tempo, sua mente estava em silêncio.Não havia listas, preocupações, antecipações. Havia apenas a faca, o cheiro do alimento fresco, o som do corte e o gesto repetido, atento.
Ela se deu conta, ali, de algo profundo: fazia meses em que vivia quase exclusivamente no piloto automático. E, de repente, entendeu por que o ano “tinha passado voando”. Ela esteve presente em poucos momentos dele.
Essa cena diz muito sobre como temos vivido. Não porque falte interesse pela vida, mas porque sobra urgência. Não porque sejamos desatentos por escolha, mas porque fomos treinados a estar sempre um passo à frente, resolvendo, prevendo, controlando.
A psicologia e a neurociência já nos mostram há tempos: quando a mente está sempre no futuro, o corpo vive em alerta. E quando isso se torna constante, o presente vai ficando cada vez mais silencioso — não no sentido de calma, mas de ausência.
O paradoxo é que não precisamos de grandes experiências para estar presentes. Às vezes, a vida pede apenas que estejamos inteiros no que já está acontecendo.
Cortar pimentões. Tomar banho sem pressa. Ouvir alguém sem formular respostas mentais. Respirar fundo antes de seguir... Momentos assim não costumam aparecer nas retrospectivas do ano, mas são eles que dão densidade ao tempo vivido.
Talvez 2026 não precise ser o ano das grandes transformações espetaculares.Talvez possa ser o ano em que você aprende a habitar mais os seus próprios dias.
Não para fazer mais. Mas para estar mais.
Estar quando a mente quiser correr. Estar quando o corpo pedir pausa. Estar mesmo quando tudo parecer simples demais para merecer atenção.
Porque, no fim das contas, o tempo não acelera sozinho.
É a nossa presença que o desacelera.
Que em 2026 você se permita viver menos no automático e mais no agora — mesmo que esse agora envolva algo tão comum quanto cortar pimentões para o jantar.
É ali, muitas vezes, que a vida acontece de verdade.
Bem Vindo 2026!




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