Você emagrece com a caneta. Mas...E depois?
- Marleide Rocha

- 2 de abr.
- 4 min de leitura

Existe uma pergunta que aparece no consultório com uma frequência que já me diz muita coisa sobre o momento em que estamos. Ela chega de formas diferentes — às vezes tímida, às vezes com um sorriso de quem ainda não sabe bem o que está perguntando:
"Mas quando eu parar de usar a caneta... o que acontece?"
Quem faz essa pergunta geralmente está indo bem. A medicação funciona — o apetite diminuiu, os números se moveram, a roupa voltou a caber. E é exatamente por isso que a pergunta aparece: porque a pessoa começa a sentir que algo está funcionando de fora para dentro, e em algum lugar dentro dela sabe que isso tem um prazo.
Esse artigo é para quem já fez — ou ainda vai fazer — essa pergunta. E para quem talvez ainda não tenha percebido que ela precisa ser feita.
O que a ciência diz sobre o depois
Os dados sobre reganho de peso após a descontinuação dos medicamentos GLP-1 são consistentes — e merecem ser comunicados com clareza, não para assustar, mas para informar decisões.
Um estudo publicado na revista BMJ em janeiro de 2025, analisando 37 trabalhos e mais de 9.300 participantes, concluiu que a taxa de reganho de peso após parar os medicamentos é quase quatro vezes mais rápida do que em pessoas que fazem dieta e atividade física — independentemente da quantidade de peso perdida durante o tratamento.
Cerca de metade das pessoas com obesidade interrompem o uso desses medicamentos em até 12 meses. E o reganho, na maioria dos casos, começa imediatamente.
— CNN Brasil / BMJ, janeiro de 2025
O estudo mais citado na área, conduzido a partir do ensaio clínico STEP 1, acompanhou participantes que usaram semaglutida por 68 semanas e depois interromperam. O resultado: recuperação média de 67% do peso perdido ao longo de 52 semanas — e o processo não havia se estabilizado ao final do período de acompanhamento.
Isso não é falha do medicamento. É sua natureza. Os agonistas GLP-1 atuam enquanto estão presentes no organismo — modulando o apetite, regulando a saciedade, reduzindo o que pesquisadores chamam de 'food noise', o ruído mental constante em torno da comida. Quando a substância sai, o sistema retorna ao estado anterior.
O corpo volta. Mas o comportamento, as emoções e os padrões que estavam por baixo do ganho de peso original — esses continuam exatamente onde estavam.
O que a caneta não vê

Há algo que a farmacologia ainda não consegue alcançar: a história que cada pessoa carrega na sua relação com a comida.
Em mais de 15 anos de clínica atendendo pessoas com comportamentos alimentares disfuncionais — incluindo pacientes em acompanhamento pré e pós-cirurgia bariátrica — o que encontro com mais frequência não é alguém 'sem controle'. É alguém que, em algum momento da vida, aprendeu a usar a comida como forma de regular o que não tinha outro lugar para pousar.
Ansiedade que chegava no fim do dia e não encontrava outra saída. Sobrecarga acumulada que precisava de alívio imediato. Vazio que a comida preencheu por anos — não porque a pessoa era fraca, mas porque era o recurso disponível.
A psicologia comportamental chama isso de evitação experiencial: a tendência do sistema nervoso de buscar alívio rápido de estados emocionais desconfortáveis por meio de comportamentos que oferecem resultado imediato, mas perpetuam o sofrimento a longo prazo.
A caneta pode silenciar a fome fisiológica. O que ela não alcança são esses padrões — construídos ao longo de anos, codificados no sistema nervoso, ativados por gatilhos que existem independentemente do apetite.
O que acontece quando o silêncio termina
Existe um fenômeno que aparece com frequência em pessoas que usam medicação para emagrecimento sem acompanhamento comportamental: quando o efeito supressor do apetite diminui — seja pela redução da dose, seja pela interrupção — o comportamento compulsivo retorna com uma intensidade que surpreende.
Não porque a pessoa 'recaiu'. Mas porque o padrão nunca foi trabalhado. Ele estava adormecido, não resolvido.
Pesquisadores alertam que sintomas de transtornos alimentares podem ter início tardio com o uso prolongado de GLP-1 — e rebound expressivo na descontinuação, especialmente sem acompanhamento comportamental.
— PMC / GLP-1 Agonists and Eating Disorders, 2025
Isso não é inevitável. É prevenível — quando o trabalho psicológico acontece em paralelo ao farmacológico.
A pergunta que muda tudo

Existe uma diferença entre usar a caneta como solução e usá-la como janela.
Como solução, ela funciona enquanto está presente. Como janela — um período em que o apetite está modulado, o ruído diminuiu, e a mente tem mais espaço — ela pode ser o ponto de partida para um trabalho mais profundo.
A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), desenvolvida por Steven C. Hayes, e a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) oferecem, nesse contexto, algo que o medicamento não pode dar: a modificação dos padrões que sustentam o comportamento alimentar disfuncional.
O que assegura o resultado duradouro
A neurociência nos ensina que mudança comportamental real — a que permanece depois que qualquer intervenção externa termina — depende de novos padrões sendo aprendidos, praticados e internalizados pelo sistema nervoso.
Não é força de vontade. É neuroplasticidade: a capacidade do cérebro de se reorganizar em resposta a experiências novas, repetidas e seguras. E é exatamente isso que a psicoterapia comportamental oferece.
Pessoas que aliam medicação e acompanhamento psicoterapêutico têm significativamente mais chances de manter os resultados a longo prazo — não porque a terapia substitui o medicamento, mas porque ela constrói o que o medicamento não pode: uma nova relação com as próprias emoções, com o corpo e com a comida.
A caneta abre uma janela. A terapia é o que você constrói enquanto ela está aberta.
Se você está usando caneta emagrecedora — ou considera usar — a pergunta mais importante talvez não seja 'quanto vou emagrecer?' Mas sim: 'o que vou fazer com esse tempo que o medicamento me dá?'
Essa pergunta, feita no lugar certo e acompanhada da forma certa, pode ser o começo de uma mudança que vai muito além do peso.




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