Redes Sociais, Corpo e Risco: O Que os Dados do IBGE Nos Dizem Sobre as Mulheres Brasileiras
- Marleide Rocha

- 15 de mai.
- 4 min de leitura
Em março de 2026, o IBGE divulgou os dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), realizada em 2024 com mais de 118 mil estudantes brasileiros entre 13 e 17 anos. Os números são graves. Mas o que mais chama atenção não é apenas a magnitude do sofrimento — é para quem ele aponta.
Em 100% dos indicadores analisados, as meninas apresentam resultados mais alarmantes do que os meninos. Três em cada dez estudantes se sentem tristes com frequência. 42,9% relatam irritabilidade constante. 18,5% pensam que a vida não vale a pena ser vivida. E a satisfação com a própria imagem corporal caiu de 66,5% para 58% desde a última edição da pesquisa, em 2019.
Esses dados não aparecem do nada. Eles são o retrato de uma geração que cresceu dentro das redes sociais — e que chegará à vida adulta carregando uma relação profundamente fragilizada com o próprio corpo.

O que as redes sociais fazem com o corpo das mulheres
As redes sociais não inventaram a insatisfação corporal feminina. Mas a amplificaram de uma forma que não tinha precedente. O algoritmo aprende rapidamente o que gera engajamento — e corpos idealizados, antes e depois de transformações, comparações estéticas e "inspirações" de emagrecimento funcionam muito bem para esse propósito.
O problema não é só o conteúdo. É a lógica que o sustenta: curtidas, comentários e seguidores se tornaram métricas de valor pessoal. Para uma adolescente em formação de identidade, essa equação é devastadora. Para uma mulher adulta que carrega décadas de exposição a esse ambiente — ela também não sai ilesa.
A menina de 13 anos que compara seu corpo com filtros e influenciadoras e a executiva de 42 anos que abre o Instagram às 22h compartilham o mesmo feed — e o mesmo mecanismo de comparação social. A diferença é que a adulta aprendeu a nomear o que sente de outras formas. Mas o impacto continua.

A febre pelo emagrecimento e os riscos que ninguém está nomeando
Nesse contexto de insatisfação corporal crônica e amplificada pelas redes, surge um terreno fértil para qualquer promessa de solução rápida. E nos últimos anos, o emagrecimento virou febre — impulsionado pela explosão dos análogos do GLP-1 e pela visibilidade que esses medicamentos ganharam nas redes sociais.
Os análogos do GLP-1 aprovados e regulamentados pela ANVISA representam um avanço real e significativo no tratamento da obesidade. Quando prescritos por médicos habilitados, com indicação adequada e acompanhamento clínico, são uma ferramenta legítima e eficaz.
O problema está no que acontece nas margens desse mercado. A demanda explodiu — e com ela, uma oferta paralela de medicamentos manipulados sem controle de qualidade, substâncias que não passaram por avaliação regulatória adequada, e procedimentos estéticos vendidos como atalhos seguros para a perda de peso. Tudo amplificado e normalizado pelas redes sociais, onde depoimentos virais substituem evidência científica.
A pergunta que precisamos fazer — e que raramente aparece nesse debate — é: o que leva uma pessoa a colocar a própria saúde em risco em busca de emagrecimento? A resposta não está na irresponsabilidade ou na vaidade. Está no tamanho do sofrimento que a relação com o corpo provoca.
O que está por baixo: quando o risco vale a pena
No consultório, ouço com frequência mulheres que recorreram a soluções não regulamentadas. Mulheres inteligentes, informadas, que sabiam dos riscos — e foram assim mesmo. Não por impulsividade. Por exaustão.
Décadas de dietas que não duraram. Ciclos de emagrecimento e reganho que deixaram marcas não só no corpo, mas na autoestima e na identidade. Uma relação com a comida que há muito tempo deixou de ser sobre nutrição e passou a ser sobre controle, culpa e compensação. E, por baixo de tudo isso, um sofrimento emocional que nunca foi adequadamente tratado.
Quando o sofrimento é suficientemente grande, o risco calculado muda de tamanho. Essa é a realidade clínica que os dados do IBGE ajudam a contextualizar: as meninas de hoje chegam à vida adulta com uma relação já fragilizada com o próprio corpo. O ambiente digital acelerou e aprofundou esse processo. E quando essas mulheres encontram uma promessa de solução — qualquer uma — a vulnerabilidade já está instalada.

O que o cuidado real exige
Não existe solução para essa crise que não passe pelo cuidado emocional. Não como complemento — como parte central do tratamento.
Isso significa tratar a ansiedade que se esconde no comportamento alimentar. Significa trabalhar a relação com o próprio corpo — não só com a balança. Significa entender o que a comida tenta resolver emocionalmente e oferecer ferramentas reais para essas situações. Significa acompanhar a mulher que usa GLP-1 regulamentado para que os resultados durem além do medicamento.
E, antes de tudo isso, significa criar espaço para que ela fale o que de fato sente — sem o verniz de bem-estar que as redes sociais exigem, sem a performance de quem está "indo bem", sem a pressão de transformar sofrimento em conteúdo inspiracional.
Os dados da PeNSE 2026 são um alerta. Mas também são um convite — para que a gente pare de tratar o corpo como problema a resolver e comece a tratar o sofrimento como aquilo que ele é: uma experiência humana que merece cuidado real, qualificado e sem atalhos.
Marleide Rocha — Psicóloga | CRP 06/95323 | Especialista em Ansiedade e Comportamento Alimentar




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