Terapia desmistificada: quando procurar e como escolher?
- Marleide Rocha

- 2 de fev.
- 3 min de leitura

Durante muito tempo, fazer terapia foi associado a “estar no limite”, “não dar conta sozinho” ou “coisa de doido”. Hoje, esse imaginário começa a mudar — mas ainda existem muitas dúvidas, medos e confusões sobre quando procurar terapia e como escolher um profissional de forma segura.
No meu consultório, algo tem se tornado cada vez mais evidente: muitas pessoas que procuram terapia são pessoas saudáveis, que desejam cuidar da saúde emocional antes que o sofrimento se transforme em adoecimento. E isso muda tudo! Porque deixamos de tratar para promover saúde mental.
Quando procurar terapia?
(não, você não precisa esperar o colapso emocional!)
Ainda é comum a ideia de que só se deve buscar terapia quando “não dá mais”. Mas, ao longo dos anos, como mencionei acima, o que se observa na clínica é um movimento diferente e muito positivo: pessoas que procuram terapia como uma forma de prevenção, não de emergência.
Alguns sinais de que a terapia pode ser um cuidado importante neste momento:
Sensação constante de cansaço emocional ou mental;
Ansiedade frequente, preocupação excessiva ou dificuldade de relaxar;
Alterações no sono ou no apetite;
Irritabilidade, culpa excessiva ou autocrítica intensa;
Sensação de estar “funcionando no automático”;
Dificuldade em lidar com emoções, decisões ou mudanças;
Repetição de padrões que geram sofrimento (relacionais, alimentares, profissionais);
Importante: não é a gravidade isolada que define a necessidade de terapia, mas o impacto disso na sua qualidade de vida — e o desejo de cuidar antes que esse impacto aumente.
Terapia como promoção de saúde, não apenas tratamento
Na clínica, é cada vez mais comum atender pessoas que trabalham, se relacionam, cuidam da família, mantêm sua vida funcionando etc... Mas percebem sinais sutis de desgaste emocional. Essas pessoas não estão “doentes”.Elas estão atentas. Buscar terapia nesse momento permite trabalhar com:
prevenção de ansiedade e depressão
desenvolvimento de regulação emocional
fortalecimento da saúde mental no longo prazo
construção de relações mais saudáveis
maior consciência sobre limites, escolhas e valores
Assim como exames de rotina ajudam a prevenir doenças físicas, a terapia pode ser entendida como um cuidado preventivo com a saúde mental. E isso é um movimento extremamente saudável.
Terapia não é fraqueza — é responsabilidade emocional

Outro mito comum é a ideia de que procurar terapia é sinal de fragilidade.
Na realidade clínica, o que se observa é o oposto: pessoas que buscam terapia preventivamente costumam apresentar maior consciência emocional e disposição para cuidar de si.
A psicologia contemporânea compreende a terapia como um espaço de: desenvolvimento de habilidades emocionais; ampliação de repertório comportamental; alinhamento entre valores, escolhas e ações; construção de uma relação mais saudável com pensamentos e emoções
Como propõe Steven C. Hayes, na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), não se trata de eliminar o sofrimento, mas de aprender a se relacionar com ele de forma mais flexível, antes que ele se torne limitante.
Como escolher um psicólogo(a)?
O que observar
Com a popularização da terapia online, das redes sociais e de plataformas voltadas para atendimento online, escolher um profissional pode gerar dúvidas. Então, listei alguns pontos essenciais que você deve considerar no momento de buscar um profissional:
Formação e registro profissional: Verifique se o profissional é psicólogo(a) com registro ativo no CRP.
Abordagem psicológica: Busque profissionais que expliquem com clareza como trabalham e em quais fundamentos teóricos se apoiam.
Sensação de segurança e vínculo: A relação terapêutica é um dos fatores mais importantes do processo. Sentir-se ouvido e respeitado é essencial.
Cuidado com promessas fáceis: A psicologia baseada em evidências trabalha com processos, não com soluções mágicas. Fuja de quem promete cura "milagrosa" e daqueles profissionais que incorporam outros métodos, inclusive duvidosos, ao seu atendimento: astrologia, florais, vidas passadas, religião... tudo isso inclusive cabe denúncia ao Conselho, pois infringe o código de ética profissional.
E se não der certo de primeira?
Nem todo encontro terapêutico funciona — e isso não invalida a terapia, nenhum psicólogo levará isso para o lado pessoal. Sempre que recebo contato de alguém buscando terapia, chamo para um bate papo inicial, terapia também precisa dar match!
Assim como trocar de profissional ou ajustar o processo também faz parte do autocuidado consciente.
Terapia é processo, não solução instantânea. Ela não oferece respostas prontas, isso desconstrói o mito de que o psicólogo "dá aconselhos"aos seus pacientes. Minha recomendação é, inclusive fuja se encontrar algum que aja assim! Ela ajuda a construir respostas possíveis, sustentáveis e alinhadas com a vida que se deseja viver. Muitas vezes, a terapia começa justamente quando a pessoa decide:“Eu não quero adoecer para então me cuidar.”

Buscar terapia não é apenas aliviar sofrimento.É investir em saúde emocional, clareza interna e qualidade de vida.
Cuidar da mente não é luxo. É prevenção, responsabilidade e cuidado contínuo. Para você que colocou como objetivo para esse ano, cuidar melhor da sua saúde mental, espero que esse texto te ajude e encoraje a dar esse passo tão importante!




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